Meus amigos, vou falar/ E preciso de atenção Uma história vou contar/ Que nasceu no coração É a vida de Canô/ Que merece louvação.
Saudando 101 anos /De uma vida bem vivida Um Cordel vou pendurar/Na Feira, na Avenida Pra espalhar por aí /Que Canô é bem querida
Muitas razões a fazem /Digna de muito agrado Ter nascido em Santo Amaro /Brincado lá na Usina Bebido água dos Filtros /No seu tempo de menina
Molhou os pés nos seus rios /Enfrentou o desafio Brincando com a pobreza /Correu na Praça, foi à Igreja Acompanhou o Apolo /Tocando tanta beleza
Nasceu Claudionor Vianna /Filha de Anísio e Iá Julinha Sempre boa estudante /Moça bem vaidosa Chamada carinhosamente /Por todos de Canôzinha
Do forte século XX /Canô nasceu num setembro No dezesseis luminoso /De mil novecentos e sete Recebeu a influência /Do número que se repete
Casou no sétimo dia /De janeiro a muito gosto Sua primogênita nasceu /A sete de fevereiro E o terceiro menino / no dia sete de agosto
Seu companheiro querido /Era Zezinho Velloso Também lá de Santo Amaro/Tinha talento e preparo Ótimo telegrafista/Era mesmo homem raro
Do seu Zeca recebeu/O nome Telles Velloso Que soube valorizar /Do Vianna foi além Mas Zeca todo orgulhoso/Só a chamava “Meu Bem”
Era chamada mil vezes /De Claudionor, Claudionorzinha Mas Dundum que era menino /Sabido muito ladino A chamou só de Canô/Foi o nome que ficou
Zeca e Canô seguiram /Num casamento feliz O amor deles cresceu/E nasceram oito filhos Que ela sempre lhes diz/Presentes que Deus nos deu
Viveram sempre unidos/Zeca o bom companheiro A recitar poesia /Canô cantando bonito Educando cada filho/Num amor bem verdadeiro
A vida foi caminhando /Os dois juntinhos lutando Para que as crianças tivessem/Um mundo muito melhor De mãos dadas davam exemplo /E conseguiram o intento
Zeca e Canô sempre unidos /Seguiram o seu destino Aos seus meninos respeito/Para cuidar do seu mundo Com amor e compromisso/Zelando por seus direitos
Canô e Zeca casaram foram pra Nazaré/Passaram lá pouco tempo Voltaram pra Santo Amaro/Cheios de amor e de fé Aí receberam os filhos/A quem deram todo amparo/
No sobrado do Correio/Tudo era proteção Depois na Rua do Amparo/Fosse inverno ou verão Cada filho recebia bonita educação
Em toda casa viviam/Com o alicerce do amor Pai e Mãe ali juntinhos/Dando lições de viver Guiando no bom caminho /Na estrada do bem querer
Nas festas de fevereiro /E em outras ocasiões/ Os filhos tinham direito /Depois de rezar novena A um prazer verdadeiro/O Parque de Diversões /
Zeca e Canô viveram /Cinqüenta e três anos de sorte Depois numa dor na vida /Separados pela morte Os corpos se afastaram /As almas seguem unidas
Canô depois de viúva / Amando sua Cidade por ela e por VZ Seguindo sempre fiel/Preocupada com o rio Preocupada com o povo/Duplicou o seu papel
O amor por Santo Amaro/Cresce em seu coração É a herança deixada/Que ela passa para os filhos Cuidando com devoção/Da Cidade tão amada
Cada filho de Canô /Vai seguindo passo a passo O exemplo recebido/Cada um com seu valor Vai lembrando do passado/E mostra o dever cumprido
Filhos, netos e bisnetos/Sabem que na Mãe firme Na Avó sempre bondosa /Na Bisavó carinhosa Tem um traço de valor/Que nasce e vive no amor
Se ganhou filhos famosos/ não sentiu nenhum orgulho Vive na tranqüilidade/ E confessa com alegria O que meus filhos me dão / É só a felicidade!
Para mim hoje é Dia do Papai dos Outros. O meu já foi, faz muito tempo.
Será que se pode festejar Bodas de Prata de Saudade? Dezembro, 2008 - 25 anos da morte de VZ, meu pai. Zezinho Velloso, o Zeca de mãe Canô. Foi no dia 13 de dezembro, dia de Santa Luzia a Santa que ele invocava por ter doença nos olhos, glaucoma, que ele morreu. Meu pai rezava para não perder a visão e a razão. Pedia aos Santos e a nós:" se eu ficar fazendo besteira não deixem!" Viveu 83 anos e nunca fez besteira. Sabia ouvir e esperar. Sabia amar e respeitar. Foi, para mim, perfeito.
Engraçado, espirituoso, brincalhão, nos enchia - a mim e a meus irmãos, depois aos netos - de dengos e brincadeiras. Repetia poemas com aquela voz bonita quando falava e que desentoava se tentasse cantar. Não aprendeu a dançar, dizia-se pesado como um piano... Amava as flores e se aborrecia quando eram tiradas do pé: "Rosa bonita é no galho onde nasceu" Sabia sentir e ensinava bons sentimentos com exemplos. Viu muitos amigos e parentes morrerem e indo aos sepultamentos dizia com uma mistura de tristeza e arrelia: "estou envergonhado de levar tanta gente..."
Sentia-se tão ligado à Cidade de Santo Amaro que não admitia que se falasse mal dela. Tinha ciúmes e até um pouco de inveja das outras Cidades que se desenvolviam mais que a sua. "Por que pão de Feira?" zangava-se por saber que as pessoas compravam o pão vindo de lá. Jamais comeu outro pão, enquanto morou em Santo Amaro, que não tivesse sido feito nas Padarias de lá. Quando estava em Salvador ia toda quinta-feira a Santo Amaro e trazia na pasta marrom tudo que coubesse para não sentir falta das coisas da sua terra naquela semana. Quinta-feira era o dia melhor para ele. Já na quarta à noite sua alegria aumentava. Amava cada rua, cada praça, cada pedra da sua terra. Ensinou a cada um de nós a lição do amor e plantou em nós o orgulho de ser de Santo Amaro. Pai do bem querer de todos nós, faz 25 anos da sua partida. Nasceu e morreu e Santo Amaro junto a Nossa Senhora da Purificação.
Pode-se festejar Bodas de Prata de Saudade? Aproveito o Dia do Papai dos outros e hoje cubro de prata minha saudade.
Pai nosso / que foste para o céu / santificado para nós é o teu nome /venha a nós o teu consolo/ foi feita a vontade Deus/ saistes daqui da terra/ estás agora no céu/ o pão do amor dia a dia/ nos davas com alegria /e perdoavas com amor / as nossas faltas e erros / não nos deixes na orfandade / cobre-nos com amor saudade/ e estaremos livres de todo mal / Amém.
1 – Minha Jangada – Dorival Caymmi – Canção para abertura.
2 – “Subi por uma linha / Desci por um cordão / Para ver se colocava / O Brasil no coração.” Meu Brasil no coração / carrego com muito amor / quero por ele lutar / com esperança e vigor / para que o meu País / cresça com as florestas / não se transforme em horror.
3 – A Secretaria Municipal de Educação preparou este encontro para despertar amor por tudo que nos cerca. Amor pelo Brasil, pela Bahia, por Salvador, por cada bairro, por cada escola, por cada casa, por cada um de nós. Amor pelo MEIO AMBIENTE.
4 – Mahatma Gandhi disse / num discurso certa vez/ a natureza é implacável / se vinga de quem mal lhe fez / qualquer dor que a terra passa / responde com uma vingança / é da natureza a lei. Palavras de Ghandi repetidas em poesia de Cordel.
5 – Cordel – tipo de poesia originalmente oral, depois impressa em folhetos vendidos em feiras. Para mostrar os folhetos os poetas penduravam em cordões, daí o nome Cordel. Comecei dizendo: Subi por uma linha / desci por um cordão / para ver se colocava / o Brasil no coração – para lembrar a rima usada no Cordel, para lembrar o dever de amar nosso País, amar o chão que pisamos, o céu que nos cobre, a água que bebemos e que nos dá vida.
6 – A poesia de Cordel veio de Portugal. Por certo numa Caravela de beleza que ancorou numa praia do Nordeste. “Ainda na Europa sobretudo em Portugal / muito antes de existir / a TV e o Jornal / não tinha alto-falante / a notícia era volante / o artista era jogral / as trovas e a poesia / cantadas por menestrel / depois que foram impressas / em versos e no papel / eram vendidas em feiras / penduradas em fieiras/ em cordão / ou em Cordel.”
7 – No Brasil foi o Nordeste que herdou de forma mais rica o Cordel que veio da Europa. “Os portugueses trouxeram / escondidos na bagagem / alguns romances famosos / de ciência e de miragem / que tiveram no Nordeste / terra de cabra da peste / bastante utilidade”. Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Ceará e Bahia guardam os seus Cordelistas com alguma distância. Não são conhecidos. Pouco se fala neles. Nas Escolas não são lidos os seus folhetos. O que é uma pena.
8 – O Cordel vem de longe: Começa no Romanceiro Luso – Espanhol da idade Média e do Renascimento.
9 – Desde o início da colonização os portugueses trouxeram o Cordel e através dos versos contavam episódios históricos, suas viagens e descobertas.
10 - No Brasil o Cordel se espalhou como os canaviais: dando doçura, mel, açúcar e também bagaço, pico da cana que chega a ferir. A Literatura de Cordel espalha coisas doces e azedas, delicadas e grosseiras. O Poeta canta ou chora a vida. Dependendo do seu sentir seus versos podem ser delicados e outras vezes bem grosseiros.
11 - O Cordel Brasileiro conta e canta lendas, fatos religiosos, milagres, histórias de amor e desamor, fatos alegres e tristes.
12 - Qualquer acontecimento pode virar poesia de Cordel – versos rimados que podem ser de 10, 8, 7 ou 6 versos. Quem escreve Cordel é chamado de Cordelista.
13 - As Escolas deixam de lado esse tipo de Literatura. É uma pena. O Cordel faz o ensino mais agradável, mais alegre e facilita a memorização.
14 - Cordel é a forma popular de contar. Quem conta ensina. Quem ouve aprende. Falar do Meio Ambiente através da Literatura de Cordel vai fazer cada aluno entender melhor o dever de casa! Com rima vai desejar garimpar as belezas que a Terra oferece.
15 - Decorar, memorizar versos é uma forma de aprendizagem. “Através da natureza a vida se manifesta” – repetir e fazer lembrar sempre que a vida é melhor ou pior dependendo do procedimento de cada um de nós.
16 - “O rio só chega no mar/ depois de andar pelo chão / o rio da minha Terra deságua em meu coração” (Caetano Veloso) Meu rio é o Subaé. Poluído, pesado, triste por nossa culpa. O rio recebendo esgoto, a água não serve. Lixo no esgoto entope, faz a água transbordar. Causa prejuízo. “Purificar o Subaé / mandar os malditos embora / dona da água doce / quem é? Dourada Rainha Senhora /Amparo do Sergimirim / Rosário dos filtros da Aquária / dos rios que deságuam em mim/ nascente primária / os riscos que corre essa gente morena / o horror de um progresso vazio / matando os mariscos e os peixes do rio / enchendo meu canto de raiva e de pena.”(Caetano Veloso)
17 - O ser vivo nasce, cresce, reproduz, envelhece, morre! Hoje crianças morrem, não chegam a crescer. Morrem de fome, de maltrato. Morrem porque a poluição não deixa os pulmões desenvolverem. O ar poluído não dá vida, tira a vida.Temos obrigação de cuidar e defender O Meio Ambiente:a cidade, a casa, a rua com esgoto a céu aberto. Doenças que poderiam ser evitadas – leptospirose e tantas outras.
18 – Sujeira causa doença. “O único animal que suja o ninho é o homem.” O ninho do homem é a Terra! O ninho de cada criança é a casa. Limpar o quintal é um começo.
19 – Escrever Cordel para pedir socorro para que todos se unam em favor do Meio Ambiente. Pensar no Brasil e rimar coração com ação! Pensar na água e rimar certeza com limpeza! Pensar nos jardins e rimar amor com flor! Pensar em vida e buscar rimas para a felicidade, a paz, a bonança, a esperança! Pensar no amor pelo lugar onde cada um vive e escrever uma carta de declaração de amor - uma carta rimada com carinho para ser distribuída nas Escolas, para todos os alunos responderem com um Cordel apaixonado por nossa Terra.
20 - De Antonio Vieira – Cordelista nascido em Santo Amaro da Purificação: “A nossa poesia é uma só/ eu não vejo razão de separar / todo conhecimento que está cá veio dentro de um só mocó / e aqui ao chegar, abriram o nó / e foi como se ela saísse do ovo / a poesia recebeu sangue novo / elementos deveras salutares / os nomes dos poetas populares / deveriam estar na boca do povo./ No contexto de uma sala de aula / não estarem esses nomes me dá pena / a Escola devia ensinar / pro aluno não me achar um bobo / sem saber que os nomes que eu louvo / são vates de muitas qualidades / o aluno devia bater palma / saber de cada um o nome todo / se sentir satisfeito e orgulhoso / e falar deles para os de menor idade / os nomes dos poetas populares!”
Final – De Catulo da Paixão Cearense (nascido no Maranhão) “A gente fria dessa terra sem poesia / não se importa com a lua nem faz caso do luar / enquanto a onça lá na verde capoeira / leva uma noite inteira / vendo a lua a meditar/ Não há ó gente, ó não luar como este do sertão.”
(Texto sobre Literatura de Cordel. Desenvolvido para Encontro com alunos da rede municipal de Salvador.)
Mabel Velloso dando aula às crianças do projeto " Miúdos da Ladeira".
Toda avó é contadora de histórias. Aquelas que leram nos livros sabem repetir os fatos do "era uma vez..." Com palácios, príncipes, fadas, bruxas, anões, duendes, palavras mágicas e muita fantasia. Aquelas que ouviram contar, repetem o que escutaram e criam e recriam contos, algumas vezes com toques de terror para que os seus pequenos ouvintes evitem o perigo, a violência, a mentira, a desobediência. Toda história carrega carinho e a melhor delas é a contada no colo.
Será que existe cena mais bela que uma avó com o neto no colo contando história? "Era uma vez..." "Foi um dia..." são palavras mágicas, trazem de volta um tempo bonito onde o faz de conta brinca com a imaginação e enfeita a vida da gente.
Netos no "faz de conta" são nossos filhos. Nos levam a repetir canções de ninar, a passear com a Branca de Neve, andar de carruagem em volta de palácios encantados, procurar o tesouro, transformar sapos em príncipes! Netos têm o poder de colorir a vida da gente. Eles se parecem com o arco-íris... Trazem beleza e cor para os nossos dias, e algumas vezes anunciam chuva ou tempestade... É quando o tempo muda e eles crescem e os sapatinhos de lã já não cabem nem nas suas mãos... Quando os tênis chegam cheios de lama ou areia dos jogos de futebol, dos passeios na praia... Parece que a cor do arco-íris some quando a desobediência toma a frente do carinho, do agrado.
Netos... Pedacinhos das histórias infantis: Emílias com mil perguntas, Pinóquios de mil mentiras, de mil desculpas, Sapinhos que com um beijo voltam a ser os nossos Príncipes... Algumas vezes procuro no meu "Chapeuzinho Vermelho" a cesta dos meus agrados, dos doces de cada dia e entristeço... O "Lobo Mau" toma a frente dos meus netos. Ele me assusta. Viro a página da história da minha vida e espero um final feliz. Reparo os meus cabelos brancos e vou correndo tecer uma história bonita de vida para os meus meninos. Procuro lápis de cor, pinto cada caminho. Pego aquarela e vou colorindo as páginas da vida deles. Pinto um arco-íris no futuro de cada um. Por fim deixo escrito bem grande: Meus netos serão felizes para sempre. Amém!
O gosto bom da vida nos é transmitido de boca em boca. Os segredos, as melhores lições nos chegam também na transmissão boca, boca, nos contos e cantos que as mães herdaram das avós e passam para nós.
Na voz de minha mãe o som do ontem de minha avó materna. Na saudade de meu pai as lições do ontem da avó paterna. O tempo correndo ensinando a viver e conviver tira-me do grupo de filhas e joga-me no grupo de mãe e logo, logo no das avós. Sem me dar conta dos cabelos brancos vejo-me a contar histórias da menina que fui e a repetir o que ouvi junto com canções de ninar e poemas declamados com agrado.
A infância que se escondia no sótão, desceu as escadas com medo e procurou o quintal que já não existe. Olhou o tanque seco de tanta saudade e tentou encontrar o portão para ir brincar na Estrada dos Carros.
A saudade dói caladinha. Não geme, não se queixa. Fica a olhar no chão a marca da mangueira que arrancaram, a lembrar da cachoeira que refrescou seus dias, a pensar nos irmãos que cresceram e foram saindo um a um deixando um vazio na cama patente, no lugar na mesa, no banco de cimento do quintal, na gangorra balançando lembranças...
Vejo minha mãe encolhidinha, sendo bisa dos meus netos, lembrando o tempo bom das mangas doces e da doçura de meu pai.
Entro na pele que mostra em cada ruga a dor calada da saudade e minha boca se enche de um gosto bom de todas as frutas do pomar da infância, e das lições que recebi boca a boca de minha mãe, minhas avós, minhas tias, minhas primas mais velhas. Tudo que recebi de bom no boca a boca do meu povo.
Sem me dar conta uma Cidade vai tomando a frente de tudo, trazendo o rio, as pontes, as praças, os passeios, o canavial flechado.
A voz de minha mãe imita a voz de minha avó e joga nos meus ouvido canções antigas: “De onde vem aquela menina de tão longe assim, assim, assim? A procura de uma agulha que aqui perdi...”
O dueto em vez de ninar me acorda e vai trazendo de volta todas as lembranças, todas as saudades. “Menina volte pra casa, vá dizer a seu pai, que uma agulha que se perde não se acha mais.” Que casa? Ainda existe? Que pai? Está tão longe... Doem as saudades todas, mas doem devagar, me carregam num agrado e fazem o dengo que só mãe e avó sabem fazer. Escuto as vozes como prece, minha mãe, minha avó, as duas recitando o Ofício de Nossa Senhora, a Nossa Maria, Filha de Sant’Ana a Dona do Dia das Avós.
Estou ciente que sou avó e canto rezando: “ Senhora Sant’Ana nina minha filha, enquanto ela dorme não faz maravilha...”
Agradeço a Deus ter me dado tempo de ver meus netos chamarem minha Mãe de minha Bisa e começo a passar para eles num boca a boca inocente as histórias da gente. Histórias vividas no sobrado, na casa bonita da Rua do Amparo, nos bondinhos puxado a burro, na roda gigante dos tempos de festa, nos passeios de canoa para Itapema, nos passeios de charrete para Oliveira e Berimbau, nas caminhadas até os Filtros da Aquária.
Ligo o rádio na esperança de ouvir uma seresta. Imagino a janela do sobrado se abrindo e por cima da Loja de Seu Clemente a lua brilhando para mim. Meus olhos se enchem como o Subaé nas cheias. Transbordam.
Olho minha neta nos seus 12 anos querendo conhecer o mundo, viajar de avião, brincar na montanha russa maior que houver. Vem um medo de não vê-la ser mãe e avó como minha mãe me viu. Tenho medo de não me incluir no rol das bisavós. Desisto de contar histórias de mim menina. Deixo de lado as escadas do sobrado, o medo de alma, o medo do sótão e dos morcegos. Faço ficar calado o piano que enchia a sala e a vida de música e alegria. Desligo o rádio grande em cima da cristaleira e fico com o silêncio do convento dos Humildes.
Pego um bonde do ontem e conto a saudade de uma Cidade, do rio Subaé, do Sergimirim. Os trilhos do bonde levam-me ao “Conde” onde tomo o Vapor. Vou-me embora... Canto a saudade...
“Adeus meu Santo Amaro / eu dessa terra / vou-me ausentar / eu vou para a Bahia / eu vou viver / eu vou morar.”
São João passoupor aqui?Só as pessoas do interior não estranham, especialmente as do Recôncavo, a pergunta feita de porta em porta.Olhando pela janela respondem: NÃO! Fechando a cara e a janela. Outras respondem: PASSOU! Abrindo a porta e o coração. É assim que se procede nas Cidades da Bahia na época das festas juninas.
A pergunta é uma espécie de senha: Passou! Significa entre! Em pensamento eu gritei assim.
A porta se abriu e eu entrei! Entrei como se faz nas cidades do interior. O pode entrar significa muito mais: pode chegar, conversar, contar casos, cantar, dançar... A sala, a mesa parecem estar sorrindo em cada casa com cara de moça bonita com laços de papel crepom e enfeites de todas as cores.A casa recebe feliz, os amigos, os conhecidos, os desconhecidos...
Em cada cálice de licor servido serve-se a amizade.
A festa é partilhada com agrado. Num canto da sala poderá estar um altar com flores de papel e lá no alto Santo Antonio no nicho para sua festa do dia treze.Estamos aqui para relembrarmos os namoros dejunho. Dia 12 - Dia dos Namorados! Santo Antonio, o Santo que o povo diz ser casamenteiro tem sua festa no dia 13, na véspera festeja-se o Dia dos Namorados. Dentro da palavra namoro está a palavra amor - dia dos namorados portanto é um dia com amor por dentro... Santo Antonio, São João, São Pedro e São Paulo são Santos amados de junho, são namorados de todos nós que os invocamos com agrado.
Festas juninas ou joaninas? Juninas porque de junho, joaninas porque de São João... Se ociúmefossecoisaboaeSantossentissemciúmesquemsabeSantoAntonio,SãoPedroeSãoPaulonãosentissemumpoucoporSãoJoãoseromaisfestejado? Santo Antonio tem trezena, é lembrado sempre, por fazer encontrarosperdidos, (RezadoResponso – Recupera-se o perdido, rompe-se a dura prisão e no auge do furacão cede o mar embravecido. Por agasalharospobres ( cobertor de Santo Antonio) Por não deixar faltar farinha e pão (pãozinho distribuído com os pobres, pão bento dentro da farinheira para nunca faltar farinha) Por arrumar casamentos (por “desencalhar” as solteironas, tirar do “barricão”quem está solitário) As sortes, as quadrinhas tiradas nos sorteios mostram o que vai acontecer. Adivinhações de Santo Antonio! Quem quer arrumar namorados (Santo Antoniocasamenteiro, protetor dos encalhados e mais ainda das encalhadas...)Santo Antonio tão bonito com Deus Menino nos braços sabe cuidar do povo pobre e livra dos embaraços! Santo Antonio de Lisboa, de Pádua, do mundo!
São Pedro tem Missas festivas, (pedra ondeCristoedificouSuaIgreja ) Pedro o PrimeiroPapa, Porteiro do Céu (Guardadordaschavesdo Paraíso) Protetor dos pescadores (Deixasuasredes...vá ser pescador de homens) Patrono das viúvas e das sogras (único Santo de quema Bíblia cita a sogra e comenta a morte da esposa.SãoPedro o chorão arrependido (negou o Cristotrês vezes) Chorou como um aguaceiro, as chuvas quando são abundantes se diz que é o choro de São Pedro. Chaveiro do Portão do Céu - quer uma casa? Peça a chave a São Pedro. Pagando promessa leva-se uma chave e coloca nos pés da imagem São Pedro e São Paulo duas fortes colunas da Igreja. São Paulo agraciado por Deus que lhe revela quem é Jesus. São Paulo se torna discípulo e apóstolo do reino. Dos Santos de junho é o menos festejado. Santo Antonio e São Pedro sãomuito queridos e festejados: Santo Antonio nodia 13 e São Paulo e São Pedro no dia 29 de junho. Santo Antonio tem a Trezena, treze dias develas acesas e muitas flores nos altares das igrejase das casas que não deixam morrer a devoção aoSanto milagroso. Os cânticos, benditos e ladainhas sobem aos céus junto ao incenso “quequeimamos com profunda adoração... Subi precioso incenso até o trono do Altíssimo incensaiGlorioso Antonio com perfume suavíssimo"SãoPedro tem novenas e tríduos - Pensar em São Pedro é saber que seus devotos jamais ficarão sem ter casa para morar. Ele intercede por nós e Deusnos manda uma chave de casa até o dia em queSão Pedro nos abrirá a porta do céu. São Pedro, São Paulo são festejados desde o século IV. Três Missas eram celebradas no dia 29 de junho em louvor a Pedro e Paulo: a primeira na Basílica deSão Pedro no Vaticano, a segunda na Basílica deSão Paulo fora dos Muros e a terceira nas catacumbas de São Sebastião onde as relíquias de São Pedro e São Paulo tiveram de ser escondidas por algum tempo. Até hoje nos chega o eco dessa tradição com as Missas celebradasfestivamente.
Depois da Virgem Santíssima São Pedro,São Paulo e São João são os Santos comemorados com maior solenidade no ano litúrgico.
Se nas Igrejas os Santos recebem louvores opovo que é a Igreja viva faz a festa mais viva! O sagrado mistura-se com o profano e rezas e folguedos se unem, as comemorações crescem nosaltares, nos andores, nas charolas e berlindas ecorrem, sobem nas mesas que se enchem de comidas e bebidas. No mês de junho todos nós que rezamos as trezenas e novenas ficamos com o coração farto de preces e o estômago farto de comidas gostosas. (Canjica, pamonha, amendoim cozido, milho assado, milho cozido, pipoca, pé de moleque, bolos de massa e aipim, licores)
Porque hoje é 18 de junho, aniversário de Maria Bethânia, vamos fazer um bolo. Bolo que seguirá para o Rio de Janeiro porque este ano ela não veio passar em Santo Amaro. A receita é simples e prática. Todos os ingredientes serão misturados numa tigela de barro comprada na porta do Irapuru. Tudo deve ser colocado aos poucos para poder ir dando um gosto especial.
Primeiro pega-se a força de mãe Canô e seu amor a seus filhos, mistura-se com o gosto que ela tem por festas e faz-se a base do bolo. Depois vai-se acrescentando:
1 – a coragem de Nicinha 2 – a disponibilidade de Clara 3 – o chorar de Mabel 4 – os Ternos de Rodrigo 5 – a elegância de Roberto 6 – as canções de Caetano 7 – o cantar de Bethânia 8 – a risada de Irene
Misturar levemente com as bênçãos e a sabedoria de mãe Canô e a saudade de meu pai.
Colocar algumas gotas das boas lembranças de minha Daia, minha de Dete, Teca, Aia, Guja e Tânia.
Jogar um a um os dias bonitos vividos no sobrado da Rua Direita e na casa da Rua do Amparo, e os veraneios em Berimbau e Itapema.
Juntar os cheiros e os sabores da cozinha, das folhas e dos frutos do quintal. Colocar uma folhinha da saudade do pé de jambo e toda beleza do araçazeiro e uma gota da maresia de Cabuçu.
Adicionar alguns copos de caldo de cana do alambique de tio Sinhô e alguns doces de compota de araçá de tia Geny.
Salpicar algumas amoras da Fazenda Amparo e pedaços dos queijos da casa de tia Iazinha e tio José.
Intercalar colheres da água dos Filtros e da Cachoeira da Vitória com pingos da água da cisterna de Cabuçu e das chuvas santamarenses. Misturar bem de leve com pedaços de raspadura comprada na feira em frente ao mercado da farinha.
Pegar alguns fios de saudade do Cine Subaé, do Salão do Apolo, da Lira dos Artistas, do sobrado do Irapuru e misturar bem. Ter cuidado para não caírem lágrimas.
Colocar alguns toques do apito do trem, o rangir do bonde puxado a burro e do barulho do vapor atracando no Conde.
Colocar tudo lentamente junto às recordações de Layrton, Vivaldo, Edmundo, Zé Burgos e Nelsinho do Bar.
Mexer separadamente as alegrias novas trazidas por Jorginho Anna Luiza, Caio, João Francisco e Rosa para colocar no final.
Salpicar sobre a massa poemas e canções com notas e acordes alegres nascidos em nossos cadernos e no piano de minha Ju.
Bater todos os ingredientes com uma colher de pau vinda do Arraial da Pedra.
Despejar numa forma untada com todo amor que sentimos pela Cidade de Santo Amaro, polvilhar com um pouquinho da tristeza que sentimos por nossa Cidade viver tão mal tratada. Depois de bem batido levar o bolo para um lugar bem frio como as noites de junho em Santo Amaro. Deixar descansar por algumas horas de preferência na porta de nossa casa na rua do Amparo com cadeiras espalhadas no passeio onde Báia, Jota, Ju, Lala, Belô, Moreno, Zeca, Tom e Diguinho conversem alto contando casos e olhando estrelas.
Para colocar no forno precisa ter o cuidado de encontrar o fogão do Telheiro. Abanar as brasas com um abanador feito na Saubara e esperar o forno estar tão quente como o Domingo da Lavagem.
Servir com cálices de licor de Jenipapo espremido na prensa da saudade de meu pai sem esquecer de espalhar gurumichamas para dar o colorido da outra saudade: a de Itapema.
Convidar os amigos sinceros e fiéis para o brinde. Convocar os que andam sumidos. Lembrar de todos que sinceramente nos querem bem.
Arrumar uma mesa bem bonita, forrada com a toalha feita por Rodrigo no seu tear. Colocar no centro flores de papel crepom feitas por Dinorah ladeando o bolo que deverá ser servido nos pratos do aparelho que herdamos de vovô Chico e vovó Dindinha.
Para confeitar o bolo usar a voz de Maria Bethânia em faixas de diversos tons e beleza crescente. A primeira talhada será para mãe Canô.
Estou aqui mais uma vez atendendo ao convite do Padre Clarindo que vem me alegrando com esse chamado. É sempre motivo de prazer entrar na casa de Deus, ouvir cânticos e louvores. É bom rezar, ouvir o Evangelho, conhecer a Boa Nova, festejar o Mês da Mãe de Jesus.
Aqui nesta Capela encontro o Mês de Maria como acompanhei quando era menina. Altar florido, velas acesas, Igreja cheia, coral afinado cantando benditos e Ladainha louvando Nossa Senhora. Palavras do Evangelho benditas como um chamamento para cada pessoa seguir o bom caminho e a cada dia se tornar melhor.
Hoje lembramos os dez leprosos que foram curados. Pensamos neles, na sua aflição, no medo da doença. Jesus chega à aldeia e de longe os leprosos gritam: “Jesus Mestre, tem compaixão de nós”. Jesus lhes diz: “Ide, mostrai-vos ao sacerdote”. Quando eles iam andando ficaram curados. Um voltou e prostrou-se agradecido aos pés de Jesus que pergunta: “Não ficaram curados os dez? Onde estão os outros nove?” Somente um voltou para agradecer, os outros foram embora...
Ninguém aqui quer ser um dos nove. Todos nós queremos receber cura e benção e desejamos ser gratos. Gritamos o nome de Jesus pedimos ajuda. Devemos lembrar sempre de agradecer.
Hoje estou aqui para agradecer. Também estive doente. Chamei por Nossa Senhora, pedi que Ela pedisse a seu Filho por mim.
Tive medo, aflição, desespero até. Mas chamei por Ela. Sendo Mãe seria mais fácil escutar meu choro. Muitos que me amam rezaram por mim e disseram a Deus: Moço, cura ela pra nós... Veio o consolo, veio a cura, veio o apoio que precisei. Venho a cada dia agradecendo a minha vida. Medos, lágrimas, neurose foram mudando em sorrisos. Volto hoje para agradecer. Vim tecer um agradecimento especial a Nossa Senhora tão bonita no Seu altar. Minhas mãos que sabem aplaudir, acarinhar, mexer nas panelas, cortar verduras e frutas, lavar pratos, segurar vassouras para varrer, levantar copos para brindar, bater palmas no samba de roda, escrever cartas aos amigos, escrever poemas e contos, hoje querem se juntar e agradecer. Mãos postas para tecer um agradecimento a Deus. Um agradecimento nascido, tecido no meu carinho. Tecer como quem pega no tear e junta linhas e fios e vai lentamente misturando as cores e desenhando agrados. O emaranhado de tons aos poucos vai se organizando, procurando o caminho certo, uma linha reta de gratidão.
Aos poucos quero que do tear do meu coração surja um trançado colorido como o arco-íris, os fios misturados, fazendo nascer um tecido de reconhecimento à Maria Santíssima como um manto leve para cobrir o Seu Bem-Aventurado Corpo.
Quero fazer uma teia nascida das batidas do meu coração, como as batidas do tear, num ruído leve, gostoso de escutar. Meu coração no toc...toc obedecendo as ordens do meu bem querer por Maria, comanda com delicada firmeza os fios do muito obriga- da que as linhas da minha vida repetem no tear. São linhas que se multiplicaram nas filhas, nos netos que me chegaram. Os fios dos meus dias se entrelaçam, se separam e eu vou tecendo com carinho a minha vida cheia de coisas para agradecer: a vida de mãe Canô, a vida das minhas meninas e dos meus netos, a vida dos meus irmãos, dos meus médicos, dos meus amigos.
Como uma dança que se enrola e desenrola, vai saindo um tecido matizado de bela harmonia. O barulho do meu coração acelerado, às vezes quase parando mostra que o tear da minha gratidão não pode parar. Em alguns momentos o cansaço, a dor no braço aumenta por ter que manobrar o lastro que segura as linhas. Mãe, filhas, netos, irmãos, médicos, amigos vão se misturando e deixando aparecer o trançado bonito que o pulsar do meu peito ordena que os fios façam. Se vem um fio de saudade chega uma lágrima querendo molhar o tecido. Lembro que já ouvi dizer que lágrima “é o sumo que sai dos olhos quando se espreme o coração” e me desculpo porque o meu coração vive sempre espremido. Mas sigo em frente pedindo a Deus que a dor do mundo não me seja indiferente. Que eu chore porque houve terremoto na China, porque uma criança sofreu na mão de carrascos, porque a vida de um anjo foi cedo demais para o céu...
Que eu teça fraldas de ternura para as crianças que sofrem e lenços de consolo para as mães que choram.
É lindo ver o tear já envelhecido mas cheio de força e vigor trabalhando bem ligeiro, de leve, de manso, o ritmo mudando enquanto o pano cresce se torna uma cortina de amor fiada e desfiada em graças recebidas. O tear / coração está velho, setenta e quatro anos, mas não cansa de agradecer. As mãos postas no tear seguem sem marcar tempo nem hora. O tear / coração não se dá conta do tempo. O tear deve ser o próprio tempo que pega as linhas da vida e deixa de presente um pouco do passado. Lá num ponto distante um nó, linhas embaraçadas que parecem querer estragar o tecido tão bonito do coração grato. O bater do tear /coração aumenta. Desfaz o nó e o pedaço do tecido que quase perde a cor se refaz. Se transforma numa toalha para o altar. Hoje foi tecido aqui, perante Padre Clarindo e todos vocês uma toalha para o altar de Nossa Senhora da Capela da Vila Militar, uma toalha para provar que a cura chegou e eu voltei para agradecer. Quero provar a todos que meu amor por Nossa Senhora é crescente e eu não sou um dos nove. Se eu pudesse deixar um presente para vocês deixaria a mamadeira de fé que me alimentou quando eu era criança e olhava as nuvens do altar da Igreja de Nossa Senhora da Purificação, fé que até hoje sustenta o meu tear/coração.
Por intermédio de Maria agradeço tudo o que tenho e tudo que sou a Deus. Amém.
Maria de Maio, hoje quero pedir um favor diferente. Vou pedir por mim e por tantas outras pessoas iguais a mim que agora esperam as noites com medo da insônia... Quero pedir que a Senhora me abençoe e me nine. Que conte histórias e me faça adormecer com o coração e a alma cheios de sonhos. Que em mim se renove a esperança e eu durma e acorde feliz sem medo de olhar o espelho encontrando rugas novas...
Que eu tenha a coragem de perguntar: espelho, espelho meu existe alguém mais bonita do que eu? E olhar em volta sabendo que o coração tranqüilo traz beleza pra gente...
Vem ó minha Mãe, conte-me histórias. Fale-me do céu e me ensine a gritar: “abre-te Sésamo!” E que o céu se abra e lá onde não existem quarenta ladrões, onde não existe ladrão nenhum, eu possa entrar e ficar quieta num canto, ouvindo o cantar dos anjos... Lá encontre minha riqueza.
Senhora minha, fale-me da floresta bonita, semelhante ao paraíso, onde os lobos e os cordeiros brincam juntos na relva. Que eu coloque sobre mim um Chapeuzinho Vermelho e possa correr levando doces sem medo do lobo mau. Que eu deixe um pouco de ser a vovó de Jorge e Anna Luiza e possa brincar no final da história, como se estivesse respondendo as perguntas da Senhora: Pra que esses olhos tão grandes Mabel, e eu responder feliz: Pra Te olhar? Pra que essas mãos tão grandes? Pra Te implorar... Pra que esse coração tão grande? Pra Te amar...
Fale-me da minha infância e conte-me baixinho a história dos Três Porquinhos que construíram casas de palha, de madeira e de pedra. Que eu não tema ventos nem tempestades porque agora minha casa tem a pedra da Vossa proteção.
Que eu sonhe outra vez com a Cinderela. Que eu possa vestir-me a cada noite com vestidos diferentes: um da cor da mata com todas as folhas, frutos e flores, outro da cor do mar com todos os peixinhos, e ainda um outro da cor do céu com todas as estrelas... Que as estrelas brilhem como brilhou a estrela na noite de Natal e eu não me assuste quando os relógios baterem meia noite... Nem precise correr escada abaixo, nem perder meu sapatinho de cristal. Faça-me sonhar com uma carruagem de paz correndo entre castelos encantados aonde a verdade me chegue falando de um Deus feito homem por Seu intermédio para nos salvar.
Conte-me baixinho histórias de pessoas tristes que foram jogadas no borralho e fale-me da beleza das fadas e das varas de condão que transformam o mal no bem. Mostre-me que é tudo feito porquê Deus existe... Porque Deus nos ama.
Faça-me ver que por mais alta que seja a torre onde nos deixam solitariamente instalados sempre aparece alguém que nos socorre e podemos jogar as tranças da esperança como Rapunzel...
Faça-me dizer sempre a verdade, ser sincera mesmo com as pessoas que mentem e se esquecem de que todas as vezes que Pinóquio mentiu o nariz cresceu... Nossa Senhora, minha Mãe, faça-me dizer sempre a verdade. Faça-me encontrar a verdade.
Nossa Senhora perdoe-me esta prece tão cheia de fantasia. Perdoe-me... É que a realidade está tão feia... Guerras, massacres, atentados, seqüestros. Aviões derrubando torres, homens derrubando irmãos, pais matando filhos. Quero fugir disso tudo e não consigo. Quando a noite vem traz o escuro, o medo, a insônia. Preciso de aconchego, preciso ser ninada com Histórias da Carochinha. Quero pensar na minha adolescência quando os sonhos cor de rosa não me faziam temer a panela de feijão onde Dom Ratão caiu e eu repetia brincando: Quem quer casar com a Dona Baratinha?
Desculpe-me esta oração de brinquedo.
Penso em rezar o terço, mas me esqueço de repetir as Ave Marias e as contas correm e se perdem nos meus dedos. Minha reza hoje é assim meio infantil, pedindo que a Senhora me coloque no colo e me nine contando histórias, aquelas que ouvi quando era criança e hoje vivo a contar, a repetir para meus netos, meus alunos.
Sei que diante de uma Imagem tão bonita devo rezar dizendo Salve Rainha Mãe de Misericórdia. Devo pedir: Lembrai-vos ó Piedosíssima Virgem Maria que aqueles que Vos invocam nunca deixastes de socorrer. Sei muito bem o que é certo rezar, mas nasceu dentro de mim essa vontade de ser menina outra vez e esperar histórias para adormecer. Encorajo-me e faço este pedido a Vosmicê minha Senhora de Maio. Conte-me histórias para que eu durma sabendo que um beijo pode transformar um sapo em príncipe, que um carinho pode virar o que é mau no que é bom.
Faça-me ouvir o conto da Formiguinha e a Neve, aquela formiguinha que ficou com o pezinho preso e esperou um raio de sol para o gelo derreter. Estou assim, com um gelo prendendo a minha vida. Mande-me um raio de sol para derreter a neve que prende o meu caminho. A neve que prendeu o pé da formiguinha não podia derreter porque uma parede impedia que o sol chegasse até ela. A formiguinha implorou à parede que saísse da frente do sol e a parede mostrou que mais forte do que ela era o rato que a roia. O rato disse que o gato era mais forte que ele. O gato mostrou que o cachorro era o mais forte, e depois o homem, que disse que mais forte do que ele era a morte e a morte disse que maior do que ela era Deus que a governa... A história nos mostra que Deus é quem derrete a neve de todo lugar, de todo coração.
Mandai, ó Senhora de Maio, um raio do Seu Filho que é o Sol de todos nós... Que Ele brilhe sobre mim, sobre todos que estão presos no gelo do pecado, da tristeza, do desamor... Que Seu brilho derreta a neve que prende a vida de todos nós. Ò Deus que és tão forte, derrete a neve que prende meu coração.
Nossa Senhora faça-me dormir no calor da Sua sabedoria de Mãe. Que eu possa ouvir mil e uma histórias contadas para que chegue aos meus olhos uma carruagem de sono com uma carga de sonhos bonitos. Que em um deles eu seja um pouco João e Maria e encontre uma casinha de chocolate... Que eu seja o Patinho Feio e possa me conformar com o meu jeito de viver... Que eu seja Emília e saiba dizer as coisas na hora certa... Que eu tenha a Bota de Sete Léguas e possa correr em socorro dos que precisam... Que eu seja A Menina dos Fósforos e possa clarear e aquecer caminhos... Que eu seja a Moça Tecelã e tecendo traga dias melhores para os tapetes da vida de todo povo.
Senhora, me perdoe essa forma de pedir o seu agrado. Que os contos ajudem-me a fugir da insônia. Nossa Senhora venha com Sua sabedoria e simplicidade ajudar-me a seguir caminhando, acreditando nos sonhos, acreditando que o amanhã será bonito e que todos seremos felizes para sempre... Amanhã, quando eu acordar menos triste que hoje, que eu possa dizer, pensando nas histórias que inventei que a Senhora me contou: Conte de novo... Conte de novo...
E repetirei cheia de alegria: Obrigada Maria Mãe de Deus e minha Mãe. Entrei por uma porta, saí pela outra, rei meu senhor que me conte outra. Amém.
Com a chegada do mês de maio nosso pensamento vai mudando de cor... Os tons mais suaves vão cobrindo tudo. Vai chegar o mês dedicado à Maria Mãe de Deus e a todas as outras mães. Em volta sons de cantigas de ninar, cantigas de roda, risos de criança.
Cheiros doces se espalham. Mães estão perto dos filhos que nasceram do seu amor. Alguns já crescidos outros ainda mamando no peito, engatinhando, balbuciando as primeiras palavras, indo para o Jardim Infantil, a Creche, a Escola, a Faculdade...
Em todos os lugares isto acontece? Quem dera! Por aí a fora em quartos escuros, úmidos, tristes, vivem escondidas outras mães sem filhos no colo. Mães sem alegria, sem colorido na vida. Junto a cada uma um arrependimento. Sim, mesmo negando elas se arrependem de ter deixado ir embora o filho que já vivia dentro dela. Por medo, por falta de apoio, por falta de recurso, por falta do companheiro, elas fazem o aborto. Interrompem a vida que se formava dentro dela. Depois ela descobre que em verdade o que faltou foi amor. Amor necessário à vida!
Quando entende que a vida foi tirada por ela a consciência grita. Um grito sofrido que a acompanhará por todos os lugares. Olhando numa pracinha crianças brincando pensa naquele ser que ela não deixou brincar, numa praia vendo na areia a marca de pés pequeninos pensa, sem querer, nos pés que ela impediu de andar, observando o azul do mar e o vai e vem das ondas sofre numa maré enchente de arrependimento. Por que? Por que? Por que? Uma série de perguntas turva seu pensamento e dos seus olhos uma maré de lágrimas bate nas pedras do seu rosto.
As crianças que passam mexem com seu coração e ela lembra daquele ser que mexeu em sua barriga pedindo para viver. Sente culpa e o remorso quer fazer ninho na sua cabeça. Foge dos pensamentos que a levam de volta ao dia em que MATOU seu filho. Não tem mais jeito. O melhor é tomar um copo de cerveja e esquecer... Um copo é pouco. São necessários muitos copos.
Por que em todo lugar que ela vai tem crianças vivendo, crescendo? Olha uma e faz o pensamento fugir para não comparar o seu tamanho, a cor dos seus olhos, a cor dos cabelos com aquela que não chegou a conhecer... Corre para longe daquele lugar onde a vida se apresenta colorida, cheia de sons de alegria. Por dentro dela o arrependimento sem cor.
Agora é tarde. A criança que ela gerou está morta. Nem chegou a conhecer o lado de fora da sua barriga. Não mamou em seu peito, não chorou em seus braços, não foi acalentada em seu colo.
Agora é maio. Mês insuportável para aquela que seria mãe e não se deixou ser mãe. Por favor poupem essa criatura. Escondam dela o riso do menino que fez um gol, o riso da menina que brinca de roda de mãos dadas aos amiguinhos. Perdoem a essa mulher. Tirem do calendário o Mês das Mães. Tentem ajudá-la.